PRP PLASMA RICO EM PLAQUETAS PARA O JOELHO

PRP ( PLASMA RICO EM PLAQUETAS ) PARA O JOELHO

O PRP ( Plasma Rico em Plaquetas ) é um concentrado composto por produtos derivados do sangue que contém substâncias responsáveis pela cicatrização e pelo crescimento celular. É também conhecido como gel plaquetário. Os benefícios clínicos desses preparados foram relatados inicialmente nas cirurgias da área bucomaxilofacial. Desde a década de 90, o concentrado de PRP tem sido utilizado como procedimento médico para tratar lesões musculoesqueléticas e ósseas. Com o aumento do incentivo comercial para as indústrias farmacêuticas, em especial na área da Medicina Esportiva, ocorreu uma popularização do uso dessa terapia, de forma desorganizada e não padronizada. Rapidamente o procedimento foi difundido para múltiplos usos como se fosse a melhor alternativa para tratar todas as lesões do joelho, o que é um mito. Passadas algumas décadas da febre inicial, hoje sabe-se que o uso do PRP para tratar lesões e doenças do joelho tem efeitos muito limitados e clinicamente pouco significativos.

OBTENÇÃO DO PRP

O plasma rico em plaquetas ( PRP ) é um concentrado autólogo de plaquetas obtido a partir do sangue do próprio paciente. Existem muitos métodos e equipamentos para obtenção do PRP, cada um com características específicas quanto à capacidade de concentração das plaquetas e ao processo de liberação dos fatores de crescimento, que são os ingredientes responsáveis por estimular a cicatrização e o crescimento celular. O PRP é obtido em três fases: coleta de sangue, centrifugação e ativação. Através de uma punção venosa, cerca de 60 ml de sangue são coletados em tubos contendo anticoagulante ( geralmente citrato de sódio ). Em seguida, os tubos são centrifugados para separação das plaquetas dos demais componentes do sangue. O PRP é então aspirado e transferido para um novo tubo. Antes da aplicação, o PRP pode ser ativado para promover a liberação dos fatores de crescimento. O cloreto de cálcio é o ativador mais comumente usado. A ativação do PRP leva à formação de um gel, também denominado gel plaquetário. É esse gel que é aplicado no paciente.

OBTENÇÃO DO PRP PARA O JOELHO

ESTUDOS

Estudos de alta qualidade metodológica descrevem resultados contraditórios e/ou inconclusivos quanto à adoção desse tratamento, o que pode estar relacionado à ampla variação de técnicas para a obtenção do preparado. A falta de padronização para a obtenção do PRP é uma das maiores preocupações dos médicos na hora de optar pelo procedimento, uma vez que o preparado pode não se enquadrar na concentração ideal para agir com eficiência sobre as lesões. Enquanto o uso do PRP permanece controverso, a única certeza que se tem é a de que é necessária a produção de novos estudos de alta qualidade, que avaliem com precisão as indicações, os efeitos e as limitações desse tipo tratamento, para assegurar que os seus efeitos deixem de ser mitos e se tornem verdades de fato. Um dos mais recentes estudos de qualidade, publicado em 2.019 na revista médica Therapeutic Advances in Chronic Diseases, concluiu que o uso do PRP não tem efeito algum e que o seu uso não se mostrou melhor do que os placebos.

LESÕES DO JOELHO

Injeções de PRP no joelho têm sido indicadas para o tratamento de lesões do joelho. Mas a terapia quase sempre não funciona e, nos casos em que parece funcionar, ela é desnecessária. As injeções de PRP no joelho não funcionam para o tratamento de lesões ligamentares completas, lesões meniscais complexas ou radiais grandes, fraturas subcondrais, osteonecrose, lesões da cartilagem, condromalácia, condropatias e tendinopatias avançadas. Ela parece funcionar em casos de lesões meniscais pequenas, lesões ligamentares parciais e tendinopatias iniciais. Mas, nesses casos, o tratamento pode ser feito de forma convencional, sem a aplicação de PRP, e com excelentes resultados, ou seja, a aplicação do PRP é quase sempre desnecessária nesses casos.

ARTROSE DO JOELHO

Injeções de PRP no joelho têm sido indicadas como tratamento para a artrose do joelho. Muitos pesquisadores estão estudando se essa opção é realmente válida. O FDA, nos Estados Unidos, não autorizou o uso de PRP para o tratamento da artrose do joelho. Estudos recentes concluíram que o PRP não tem efeito algum no joelho onde a cartilagem está degenerando. Algumas clínicas anunciam o uso de PRP para regenerar a cartilagem dos joelhos artrósicos. A realidade é que o tecido cartilaginoso não tem capacidade de regeneração, com ou sem o uso de PRP.

PRP PLASMA RICO EM PLAQUETAS

AMERICAN COLLEGE OF RHEUMATOLOGY

As diretrizes atuais da ACR ( American College of Rheumatology ) recomendam fortemente evitar o uso de PRP no tratamento da artrose do joelho porque essa terapia é experimental e não foi ainda totalmente desenvolvida e padronizada. Segundo a entidade, enquanto não se tiver certeza do exato conteúdo de cada dose de PRP, a terapia não tem como ser aplicada porque não tem como se saber os seus efeitos.

AMERICAN ACADEMY OF ORTHOPAEDIC SURGEONS

As diretrizes atuais da AAOS ( American Academy of Orthopaedic Surgeons ) também recomendam evitar o uso de PRP no tratamento da artrose do joelho porque não existem evidências suficientes de que essa terapia seja benéfica para os pacientes.

FDA

O FDA ( Food and Drug Administration ), agência governamental que lida com o controle das indústrias alimentícias e de medicamentos nos Estados Unidos, aprovou vários métodos e centrífugas para a obtenção dos preparados de PRP. No entanto, o uso do PRP na prática clínica não está totalmente aprovado e toda a responsabilidade de aplicá-lo é do médico.

NHS

Em 2008, o NICE ( The National Institute of Health and Clinical Excellence ), o núcleo de maior autoridade em saúde no serviço público de saúde do Reino Unido – NHS, declarou que não há evidências suficientes para permitir o uso do PRP na rotina clínica e que sua utilização deve ficar restrita apenas à pesquisa clínica.

APLICAÇÃO DE PRP NO JOELHO

RISCOS DO USO DO PRP

Como o PRP é derivado do próprio sangue, não existe chance do paciente apresentar alergia ou uma reação imunológica. Efeitos colaterais são raros. Dor após a aplicação é a queixa mais comum. O risco principal é de infecção. Foram descritos vários casos de infecção em partes moles e artrite séptica após a aplicação de PRP. A produção de PRP é um processo envolvendo várias etapas, desde a coleta do sangue até a separação do PRP, e isso aumenta a possibilidade de contaminação.

POR QUE PRP NÃO FUNCIONA PARA O JOELHO?

O sangue é composto por uma parte líquida, chamada plasma, e por elementos figurados que ficam suspensos no plasma, que são as hemácias, os leucócitos e as plaquetas. As plaquetas, também conhecidas como trombócitos, são fragmentos de células. Elas não são células completas. Elas são pedaços do citoplasma de uma célula maior chamada megacariócito, que existe na medula óssea. A principal função das plaquetas é a coagulação do sangue. Elas também participam do reparo tecidual de lesões, liberando no local machucado fatores de crescimento que estimulam a regeneração tecidual e a formação de novos vasos sanguíneos. A ideia do PRP é concentrar as plaquetas do sangue, através da centrifugação, e aplicar o concentrado obtido num local que precisa ser reparado. O PRP é o plasma sanguíneo com uma concentração maior de plaquetas do que o normal. Injetar PRP no joelho, seja no espaço articular ou nos tecidos periarticulares, é uma forma de aumentar artificialmente a quantidade de plaquetas e fatores de crescimento no local da aplicação com o objetivo de acelerar a cicatrização e a regeneração tecidual. A ideia, a princípio, parece boa. Só que na prática as coisas não funcionam como desejado. A homeostase do corpo determina a quantidade ideal de plaquetas que devem ser deslocadas para um tecido lesionado. A concentração fisiológica de plaquetas num local lesionado, determinada pela homeostase, é a concentração ideal. Qualquer excesso, mesmo de algo bom como as plaquetas, costuma sair do ponto ideal e gerar efeitos indesejáveis. Se fossem necessárias mais plaquetas no local da lesão, o próprio organismo se encarregaria de resolver esse problema. O excesso de plaquetas não aumenta a estimulação da regeneração dos tecidos, pode aumentar a inflamação local, provocar fibrose e até retardar o processo de cicatrização. Em relação a tecidos pouco ou não vascularizados, como a cartilagem, a parte mais interna dos meniscos e os tendões, a aplicação de PRP é praticamente inútil. PRP não regenera cartilagem nem cicatriza menisco. Outro problema observado é que não se sabe exatamente a composição do PRP obtido porque a composição do sangue varia nas diferentes horas do dia e existem diversos métodos de obtenção do concentrado. A maioria dos médicos e pesquisadores considera que o uso do PRP na articulação do joelho apresenta benefícios muito limitados ou não clinicamente significativos para os pacientes.

BRASIL

Importante lembrar que no Brasil o uso do PRP na ortopedia era considerado experimental até pouco tempo atrás. Leia AQUI a resposta da ANVISA ao questionamento sobre o assunto feito pela SBCJ ( Sociedade Brasileira de Cirurgia de Joelho ). Leia AQUI o parecer de 2.011 do CFM ( Conselho Federal de Medicina ) sobre o assunto. Leia AQUI a resolução de 2.015 do CFM sobre o assunto. Leia AQUI a nota técnica de 2.024 da ANVISA sobre o assunto.

Em 15 de julho de 2.026 entrou em vigor uma nova resolução do CFM, a Resolução n˚ 2.426/2026 ( leia AQUI ), que regulamenta o uso de PRP na ortopedia como procedimento médico auxiliar no tratamento da artrose do joelho e no reparo meniscal. Com a nova resolução, médicos ortopedistas especialistas em joelho podem usar o PRP ambulatorialmente como procedimento médico adjuvante no tratamento dos casos leves e moderados de artrose do joelho e no reparo de lesões meniscais. Mas, apesar da nova regulamentação, muitos especialistas mais sérios e experientes ainda não sentem confiança na terapia com PRP. Os dois principais motivos para a desconfiança são: o médico não tem como saber a composição exata do PRP obtido, porque isso varia muito de paciente para paciente e do método utilizado para a obtenção do PRP, e os efeitos da terapia são desconhecidos porque, além da composição do PRP obtido, existem ainda variações individuais que dependem da fisiologia articular e características da lesão ou doença que está sendo tratada no joelho do paciente.

PRP É UMA FARSA?

Muitas pessoas classificam o uso do PRP para o tratamento de problemas do joelho como uma farsa. Isso acontece porque o procedimento foi cercado por promessas milagrosas de clínicas não muito sérias, além de ter sido utilizado no passado recente em uma zona cinzenta de regulamentação no Brasil. A farsa não está no PRP em si, mas como ele é divulgado e comercializado por maus profissionais. PRP não regenera a cartilagem, não é indicado para os casos de artrose avançada do joelho e nem é um produto milagroso e padronizado. A composição do PRP depende da saúde geral do paciente, do horário do dia em que o sangue foi coletado e do método utilizado para a sua obtenção. Não existe uma fórmula única e padronizada de PRP. Essa falta de padronização é um dos motivos dos resultados incertos e inconsistentes. Apesar dos excessos de marketing, o PRP não é uma farsa científica. Quando bem indicado, o PRP pode ajudar no tratamento da artrose do joelho. Trata-se de um anti-inflamatório biológico que é eficaz na diminuição dos sintomas da gonartrose de graus leves e moderados. Mas o PRP nunca deve ser usado sozinho. Ele é um tratamento adjuvante, ou seja, funciona melhor quando associado aos tratamentos convencionais já consagrados. O PRP não regenera cartilagem, não cura a artrose do joelho, não substitui uma cirurgia, seu efeito é temporário, o bom efeito pode depender de várias aplicações e a sua aplicação é um ato médico exclusivo regulamentado pelo CFM para ser usado por médicos especialistas em situações muito específicas.